De Matos e Guerra. Esse homem me fez amar a arte barroca. Abaixo estão alguns versos de comovente lirismo. Confiram a arte desse homem que abria as portas do inferno com sua boca maldizente.
Décimas
[Passando dois frades franciscanos pela porta de Águea pedindo esmola, deu ela um peido, e respondeu um deles estas palavras "Irra, para a tua tia".]
1
Sem tom, nem som por detrás
espirra Águeda à janela,
mas foi espirro de trela,
porque tal estrondo faz:
que um Reverendo Sagaz
lastimado, do que ouvia,
se já não foi, que sentia
ouvir tal ronco ao traseiro,
disse para o companheiro.
"Irra para tua Tia"
2
Sentiu-se Águeda do irra,
e disse, perdoe, Frade,
que pede por caridade,
não se agasta com tal birra:
aqui nesta casa espirra
todo o coitado, e coitada;
passe avante, que isso é nada,
e se acaso se enfastia,
será para sua Tia,
ou para o seu camarada.
3
Basta, que se escandaliza
do meu cu, porque se caga?
Venha cá, boca de praga,
que cousa mais mortaliza?
O peido, que penaliza,
é sorrateiro, e calado:
o peido há de ser falado,
ou ao menos estrondoso,
porque aquele, que é fanhoso,
é peido desconsolado.
4
Quantas vezes, Frei Remendo,
dará com o meio do cu
peido tão rasgado, e cru,
que lhe fique o rabo ardendo?
perdoe, pois, Reverendo,
não cuidei, tão bem ouvia;
e se esmola me pedia,
aceite-o por caridade,
se não servir para um Frade,
leve-o para sua Tia.
[Torna o poeta a instar uma segunda vez]
1
Bela Floralva, se Amor
me fizera abelha um dia,
todo esse dia estaria
picado em vossa flor:
e quando o vosso rigor
quisestes dar-me de mão
por guardar a flor, então
tão abelhudo eu andara,
que em vós logo me vingara
com vos meter o ferrão.
2
Se eu fora a vosso vergel,
e na vossa flor picara,
um favo de mel formara
mais doce, que o mesmo mel:
mas como vóis sois cruel,
e de natural castiço
deixais entrar o caniço
um Zangano comedor,
que vos rouba o mel, e a flor,
e a mim o vosso cortiço.
Décimas
[Ao mesmo capitão fretando-lhe a amásia certo homem chamado "o Surucucu".]
1
Passou o surucucu,
e como andava no cio,
com um e outro assobio,
pediu a Luísa o cu:
Jesu nome de Jesu,
disse a mulata assustada,
se você é cobra mandada
que me quer ferir da escolta
dê uma volta, e na volta
poderá dar-me a dentada.
2
Apenas isto escutou,
quando a boa cobra solta
deu a volta, mas a volta
não foi, a que a namorou:
porque o bom Adão achou
no Paraíso, ao entrar,
sem poder a Eva falar,
jurando o seu nome em vão,
pecou no segundo então,
por no sexto não pecar.
3
O seu Santo nome disse
em vão: mas o capitão
perguntou a Luísa então
a cauda da parvoíce:
ela; porque ela ouvisse,
toda de risinhos morta,
este mandu (disse absorta)
não repara, que se implica
marchar eu com outra pica,
tendo o Capitão à porta?
4
Saiba, Senhor Capitão,
que se Luísa, se fornica,
antes com homem de pica,
que com homem de bastão:
porém se este toleirão,
quiser vomitar peçonha,
livra-me-ei dessa erronha,
pois na sua cara vejo,
que terá muito pejo,
mas tem mui pouca vergonha.
5
Prometeu vir do passeio
veio como um corrupio,
eu não vi homem tão frio,
que tão depressa se veio:
sobre ser frio é mui feito;
sobre ser feio é mui tolo;
porém se o meu portacolo
não erra, tem o magano
nos colhões mui tutano,
na testa pouco miolo.
Rematando com um curtinho:
[Às religiosas que em huma festividade, que celebráram, lançáram a voar varios passarinhos]
Meninas, pois é verdade,
não falando por brinquinhos,
que hoje aos vossos passarinhos
se concede liberdade:
fazei-me nisto a vontade
de um passarinho me dar,
e não o deveis negar,
que espero não concedais,
pois hoje é dia em que deitais
passarinhos a voar.